domingo, 29 de agosto de 2010

Passado à porta

a cabeça solta em pensamentos
ela toma conta de todos eles.
ela novamente, ela, a nova.
em si, renovada.

pensamentos convergentes,
incessantes, levemente assustados.

análise do passado em pleno presente
passado este recente,
a tona, mais uma vez.
sentes.



Meu, para o mundo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Não Está nos Livros

sem receitas
sem direita nem esquerda.

bom dia pra sorrir,
olhar nos olhos,a
palavras belas e fugir.

belo dia para começar de novo,
lembrar-se que foi, passou.
limpar e continuar.

bom dia para chorar,
sem tristezas, medos.
espantar as dúvidas.
levantar.



Meu, para o mundo.

domingo, 22 de agosto de 2010

Nota Mental

quero correr daqui, parar ali na frente, pular no banco da rua com a tinta ainda fresca, sapatear e deixar as estrias do meu all star marcadas nele. branca. tomara que a tinta seja branca, igual naqueles filmes quando o cara senta no banco e não percebe o papel fixado na madeira dizendo: “Não sente. Tinta fresca.” engraçado, né? as coisas mais simples e bobas às vezes são as que nos fazem mais felizes.



Meu, para o mundo.

sábado, 14 de agosto de 2010

Pilha de Fotos

Passaram-se dias. A pilha de fotos aumentava exponecialmente, a pilha de sentimentos crescia e já escorria pelo tapete encardido embaixo da mesa de centro. As fotos eram de vinte, quarenta anos, sessenta anos atrás. As viagens, as paisagens, os beijos. Uma infinidade de olhares. Uma eternidade de mãos entrelaçadas, sorrisos trocados. Um sem fim de países visitados, de pontos turísticos registrados em quilômetros de rolos de filme 35mm. Tudo parece distante agora. Cada cílio fechado, cada pedaço de roupa trocada, tocada. Cada abraço dado e desfeito em questão de segundos. O passado voltou para assombrar como sempre, é do seu feitio. As fotos vão desmoronando. Pouco a pouco, como uma cachoeira em câmera lenta, é passível evitar sua queda e a colisão iminente. Tudo ao redor para, congela-se. Ficou para um próximo segundo. Um próximo sorriso aberto por um abraço dado e um beijo estalado na bochecha esquerda. Ficou para uma próxima vida, não tão longe, mas nem um pouco próxima. A vida seguiu, assim como as fotos que caíram. Foi um curso-colisão-rota inevitável, irrefreável.
A pilha desmorona aos poucos. As cores ficam turvas, fundem-se, viram um pastel-azulado-com-toques-alaranjados. Os pés tocam os cabelos, as mãos mesclam-se com a cintura-violão da loira, os olhos agora são o nariz de cada um, solto no espaço. Seguiu-se o trajeto. As histórias sem envolvem, evoluem, dissolvem como tinta na água, homogêneas como água com açúcar. Restaram as alianças soltas. Sem dedos para formar um par. Um casal entregue ao sucesso, rumando de encontro ao fracasso de um amor etéreo. Fim antes de ter saído do papel. Ficaram as lentes de contato expostas tempo demais, ou ambos cegaram-se com tanto sentimento? O futuro chegou cedo demais, ou eles envelheceram e desenvolveram tantas manias insuportáveis que o presente virou passado?
Metade da rota de colisão com o tapete encardido embaixo da mesa de centro. Algumas fotos são paradas pelo tampo de vidro da mesa. O peso delas trinca o vidro. Encobrem os livros, as folhas com textos velhos manchados de café. Derrubam latas de energético vazias, tombam amores, estraçalham horrores e temores. Ficam marcadas de cinzas de cigarro. Acendem charutos, servem de combustível pra lareira do coração. Cada pedaço de papel com tinta marcada gerou um registro indelével, indefectível. Doloroso. Agora, dolorido. Restou a marca, o crivo da verdade nua e crua no coração pulsante.
Colisão completa. Resultado da batida: 1 coração quebrado. 1 mente perturbada. 12.403 fotos derramdas, como vinho, sobre o tapete encardido.



Meu, para o mundo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Caindo

Bem fundo,
Profundo,
Mundo guardado a espera
Do amanhã, do domingo.
O sol varando a janela,
O controle na mão,
Canal. Sorriso,
Abraço e mãos,
Coração em coração
Lábios selados,
Juntados, amados.
A mesma marca,
Dedos iguais em extensões distintas,
Conectados, separados pelo físico,
Unidos em astrológico.
Olhar profundo,
Passagem para um novo mundo.



Meu, para o mundo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

para recomeçar

juntei minha pilha de papéis
rabiscados, amassados,
gostas d’água espalhadas.
a caneta com meio carga
e tampa mastigada até o osso,
recolhi meus cabos digitais
e arquivos físicos.
empacotei os documentos
em pastas de madeira,
envelopei as máscaras,
aquelas que vestia diariamente.
abri a porta de saída,
olhei pra trás.
a última observada sincera,
o último sorriso honesto.
o chaveiro tilintava no meu bolso.
irônico. a menor chave
era a mais pesada.
destarrachei-a da argola,
coloquei no pote.
bati a porta atrás de mim.
fui ser feliz.
respirar.



Meu, para o mundo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Imperceptível

a mente transformou em linha.
fina, de linho. fio do frio,
no horizonte sem fim
distante da boca,
contíguo ao sim de lá.
teceu a metástase,
ordenou o ataque
raso transmutado em coronel,
chefe do rebanho,
matilha do bordel,
cabeça a prêmio,
desleal infiel,
degolado no paço
cabos no percalço,
seu torniquete frouxo,
sem fita para laço.
fim da linha rósea,
enrubecida faixa em meio fio,
encharcado de água,
lágrimas do céus,
- não! é o começo da minha,
fim da sina,
meio da raposa,
da rapina.
corta-se a linha fina.



Meu, para o mundo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Caminho da Sessão

Fazia tempo que não abria o documento para escrever. Melhor ainda, o documento sempre esteve aberto, em branco, nos últimos 20 dias. Mesmo período em que seu laptop permanecia, heroicamente, ligado. E plugado na fonte carregadora. Se isso iria resultar em danos e futuras manutenções não importava, o que ele queria era ter acesso às suas coisas quando bem entendesse. Menos aos programas de mensagem instantânea. O círculo azul na barra de ferramentas e os números em seu celular para envio de sms já eram mais que suficientes. Auto-suficiente. Intrasigente desde sempre. Meio isolado do resto do mundo, recebia convites pelas redes sociais, nunca dando um parecer se iria ou não comparecer às festas e aos eventos que era convidado. O checkbox eram sempre ticados, mas não deveriam ser levados tão a sério pelas pessoas. Ticava para brincar, ocupar seu tempo livre e sua mente incessante com coisas triviais acalmava sua alma e deixava seu ânimo equilibrado, sem correr riscos de cair em depressão e sem racionalizar demais sobre a vida.
Partia de um lado para o outro da casa, lotada de roupas, lotadas de brinquedos, de toys, de espaço livre para muito mais coisas que iria comprar. “Consumismo consumindo o consumo do consumista”, disse ele para si mesmo, enquanto escrevia tais dizeres na parede ao lado da porta de entrada, que dava de frente para o balcão da cozinha. Sua estante de livros, arqueada, evidenciava que um reforço em questão de semanas seria necessário para prevenir um desastre iminente. O post-it na geladeira jazia com a anotação: Comprar parafusos, ou o que quer que seja o nome do material que dê reforço à estante. Abriu a geladeira, serviu-se do suco de laranja, que obviamente já estava no final da caixa, obrigando-o a tomar apenas metade da metade de um copo, o que lembrou-o de outro problema: o estoque de comida estava chegando ao final, teria que sair para comprar comida, suco, frios e mais algumas coisas que encontrasse no mercado. TInha parado de beber, então seu custo mensal de alimentação e bebidas tinha descrescido consideravelmente, além do seu físico ter melhorado significativamente. Fechou a porta da geladeira, não antes de pegar um pedaço de queijo e um de presunto e fazer um rolinho para comer. A porta bateu enquanto batiam na outra porta. “Vai, cara. Levanta essa bunda do sofá.” “Merda, sempre esqueço de arrumar a campainha. Já vai.” Antes de atender, escreveu em outro post-it, que afixou na borda da TV: “Consertar campainha.” “E aí, como que tá? Tá pronto?” “Tranquilo, meu querido. Pronto pra quê?” “O cinema. Esqueceu? É daqui 30 minutos.” “Me dá 5 que já saímos.” “Merda. Ok.” Nunca tomou um banho tão rápido em toda sua vida. Em menos de 5 já estava fora do banho, e em questão de mais 1 minuto acrescido ao timer estava pronto, fechando a porta do apartamento. Sua mão esgueirou-se pra puxar a chave geral que desligava todas as luzes, deixando apenas a geladeira em funcionamento. Dica do seu chefe. “Sábio”, pensou novamente consigo mesmo.
Descendo as escadas do 2º até o térreo, seu telefone tocou.

“Namorada” dizia o display. Toque do celular: The Album Leaf / Always For You

“Oi. Tudo bem?”



Meu, para o mundo.